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Luiz Ruffato : "eles eram muitos cavalos"

etnografia literária de São Paulo

« eles eram muitos cavalos » é o titulo do romance de Luiz Ruffato, editado pela Record em 2007. O livro é uma representação da cidade de São Paulo, verdadeiro microcosmo que espelha a dinâmica e o funcionamento sociais do Brasil. Tal qual São Paulo com suas avenidas infindas, sua populaçâo numerosa, suas vidas e mortes, o romance de Luiz Ruffato espelha os antagonismos sociais e a assustadora logica de reprodução social.

O romance é construído a partir de 68 sequências da cidade de São Paulo, construção totalmente desorganizada (e reivindicada pelo autor), que é o retrato da cidade. Nesse sentido, o autor forja uma forma literária que lhe possibilita espelhar toda a realidade que tem diante dos olhos, e que dessa maneira, ele traduz do ponto de vista literário. A visita da « Mâe » oriunda de Garanhuns no Pernambuco, que viaja vários dias de ônibus para estar com o filho e a família no dia das mâes inscreve São Paulo na rede de relações sociais brasileiras. Várias vozes entoam essa história, a primeira é a voz do narrador, em seguida a voz da velhinha que viaja « grudada na poltrona número 3 da linha Garanhuns-São Paulo », e enfin, a voz do motorista (que também pode ser a voz de um dos passageiros do ônibus). Utilizando vários recursos tipográficos como o itálico, por exemplo, o autor estrutura a história onde pode-se captar perfeitamente os desejos e o sofrimento da viajante, inscrevendo a história no imenso espaço social brasileiro, o das migrações internas, sempre no sentido norte-sul, que abastece as cidades de mão-de-obra barata e desqualificada. Essa sequência mostra com clareza a alta componente cinematográfica, onde o leitor pode « ver » as cenas que se desenvolvem sob seus olhos.

Além de tal personagem, muitos outros compõem a trama da estrutura narrativa cuja uma das características é o anonimato geral dos personagens como ilustra a 9a sequência. Em todo o texto, não há nome algum ; a própria descrição reforça o anonimato da situação. No final da leitura, o leitor é incapaz de individualizar os personagens. Assim, tem-se algo que se aproxima de « tipos » weberianos, esboço de características sociais que lembram posições sociais definidas. A partir de tal estrutura, Luiz Ruffato estrutura « retratos » sociológicos de São Paulo. Aqui, vê-se uma mãe que, pouco a pouco, após se separar do pai de seus filhos maiores em razão de abusos sexuais sobre as crianças, cai no fundo da miséria, e na prostituição. A sequência seguinte mostra a relaçâo alienada e desgastada de um casal, a partir do ponto de vista da mulher que percebe o quão ela está sozinha, com seu marido lendo Michel Foucault, que não quer ouvir nada. A partir de histórias sem relação formal entre si, o autor tece uma crítica social a partir das relações que os habitantes entretém entre si (ou não), cada qual no seu microcosmo, o que melhor parece uma prisâo. De fato, desses milhares de microcosmos (dentro desse microcosmo maior que é a cidade) a vida se esvai…. No final do caminho, a escolha é simples, desilusão ou morte, talvéz única realidade realmente objetiva para tais personagens. A morte como referência máxima reforça a fragilidade da vida de cada um deles, o lado efêmero das coisas, e a certeza que tudo pode de fato acabar no instante « T », ou para muitos antes do instante « T ».

Nesse sentido, a questão aqui é a seguinte : o que significa viver ? A partir dessas histórias em que floresce o desespero e a falta de perspectiva gerais, o sentido do verbo « viver » se esvai. Lutar ? Para viver ? Muitas vêzes sem saber (sabendo) que já perderam, ou que tudo perderão em breve… O que acontece com os personagens pertence ao domínio do absurdo, cujas vidas são frageis, praticamente inexistentes. Nesse ponto, o autor levanta um aspecto social fundamental : essa fragilidade é distribuida em função de posições sociais, dos que têm dinheiro (e poder), e dos que não têm. A sequência 46 mostra claramente essa dissimetria social quando vê-se estruturar a relaçâo de subordinação de tipo feudal existente entre o prefeito e seus « homens de mão » na prefeitura. O título da sequência já é significativo, em si : « o prefeito não gosta que lhe olhem nos olhos ». Claramente, dois polos, mandantes e mandados. A partir de uma escritura intensa (intensidade representada pelo fato da história estar contida num único parágrafo), o autor narra a ascensão social de um guarda-costa e homem de mão do prefeito. Assim, ficamos conhecendo as grandes linhas da história dele : conseguiu o emprego (de favor), ascendeu socialmente, ganhou respeito e consideração dos semelhantes porque tem emprego : ele « é  o encarregado de conduzir o povo pra lá e pra cá pra bater palmas e na hora certa gritar o nome do prefeito e carregar « Ele » nas costas em troca de lanche com refresco e mais uma caixinha, cujo valor depende do dia e da importância do negócio. » A necessária contrapartida do « emprego » obtido (de favor) consagra tal relação de subserviência no fato dele nunca poder olhar nos olhos do prefeito, isto é, nunca poder afirmar-se como um ser igual.

O livro de Luiz Ruffato estrutura-se a partir de uma linha diretriz que é a narração de muitas micro-histórias. Juntas, elas compõem um quadro geral, uma história ao nível macro, a de São Paulo, e do imenso espaço nacional brasileiro. Tecer um outro ponto de vista do Brasil, contando as histórias a partir de outra perspectiva, a « dos de baixo », tal é a etnografia literária de Luiz Ruffato sobre o São Paulo e o Brasil. E, de fato, muitos cavalos eram, como o eram os personagens do filme « os cavalos também se abatem », adaptação cinematográfica de Sidney Pollack baseado no livro do escritor estado-unidense, Horace MacCoy, que escreveu seu livro após a Grande Depressão para salientar o fim do sonho americano.

Afinal, em muitos países, muitos cavalos há…

Ana Rossi, Novembro 2007

copyright : Ana Rossi

 Para citar esse artigo, www.anarossi.org (e a data de consulta)

Luis Ruffato publicou no Jornal Rascunho, jornal de literatura de Curitiba (PR) um artigo que recomendo cujo titulo é :

Antologias,

os critérios politicos e literarios que cercam a primeira antologia de contos


Veja no jornal Rascunho :

http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=3&lista=1&subsecao=59&ordem=1895

Boa leitura !



Novidades, novidades...

Luiz Ruffato lança mais um volume da saga sobre a formaçâo do proletariado no Brasil. Esse quarto volume se inscreve na linha de seus livros anteriores : Mamma, son tanto felice, O mundo inimigo, e Vista parcial da noite.

Nesse livro intitulado "O inferno Provisorio" torna-se mais clara a degradaçâo dos personagens.

Editora Record. Encontra-se nas livrarias desde dia 12 de setembro!

Aleilton Fonseca, Nhô Guimarâes

Le livre de Aleilton Fonseca, Nhô Guimarães est un roman en hommage à Guimarães Rosa, le prosateur et le poète de la langue poétique brésilienne, celle de l'intérieur du pays, de l'intérieur des terres, celle qui a reçu ses lettres de noblesse à partir de son écriture. Ce roman est narré par une femme, veuve, femme pratiquement au seuil de la vie, avec des yeux vifs, et le sac empli d'histoires à raconter. Elle aussi. Dans sa verve, elle raconte les « histoires », non pas les « casos » comme le dirait la langue savante, mais bien les « causos », ce mot qui dit exactement la même chose que sa traduction en langue française, mais qui est là pour marquer la différence sociale et aussi régionale, entre ceux qui possèdent le savoir, et ceux qui ne le possèdent pas. Au Brésil, c'est aussi, mais pas seulement, une question de distance de l'océan Atlantique.

Ainsi, la narratrice que nous, lecteurs et lectrices, comprenons progressivement être l'épouse du défunt qui recevait, chez lui, Nhô Guimarães lorsqu'il passait dans la région, eh bien ! cette narratrice, raconte les « causos » que le visiteur fasciné écoutait, ces histoires racontées par son mari.

De ce fait, trente-six « causos » sont racontés à nous dans un langage plein de verve et de poésie, qui met en scène cette langue et ces sonorités qu'au Brésil on reconnaît comme appartenant à une région, le Minas Gerais ou le Goiás, dans ses limites avec Bahia et le Nordeste. A la lisière de ce territoire immense, bande de terre intérieure qui regarde l'océan Atlantique au-loin, la narratrice vit au rythme de sa mémoire dans les bandes de sons liquéfiés par les personnages qui parlent, et se racontent, pour parler d'eux et du monde qui les entoure. Elle se souvient.

Petit à petit, l'imaginaire croît, et j'entends les voix qui sourdinent dans l'arrière-cour de la connaissance de ce pays, dans ses inombrables accents syntaxiques lorsque la langue orale se substitue à l'écrit, et que la langue parlée prend toute sa place. Et, du coup, ce qui est faute grammaticale, ne l'est plus. La norme en dehors de la norme. Ou dans une autre norme à oustiller et pousser la langue de manière incessante. Ainsi, l'oralité pointe au bout de chaque page, dans les titres, dans les expressions fugitives prises d'assaut par la poétique de l'auteur, Aleilton Fonseca, pour parler ici de l'autre auteur, Guimarães Rosa, celui qui est déjà parti, celui qui nous laissa son imaginaire en héritage dans une prise de risque absolue lorsqu'il fit parler le Brésil de l'intérieur du point de vue littéraire, pour, encore une fois, raconter le Brésil, son Brésil, notre Brésil, et par là-même nous raconter.

Dans la fraîcheur de ce monde existant, inexistant, Aleilton Fonseca puise au coeur de ces terres l'oralité nécessaire pour faire parler ce monde-là, le monde guimaraisien. L'oreille, finement dressée, retient, alors, toute en finesse, le lexique propre à cette région, et les tournures de phrases sans commune mesure affleurent à fleur de peau pour savourer ce qui est encore d'actualité dans ces terres de l'intérieur du Brésil, notre langue en mouvement, non sans se souvenir que Guimarães Rosa n'a pas fait que retranscrire des histoires, ils les a aussi changées, et c'est dans ce changement qu'elles ont aussi pris de l'ampleur pour mieux retourner à la terre natale : « La nature sait être belle, confirmait-il, « regardez tout autour de vous, c'est à vous, tout appartient aux yeux ». On regardait. Du coup, ce n'était plus seulement ce qu'on voyait avant; tout était plus beau dans son parler, qu'il maîtrisait. »[1]

Ana Rossi, Bandol, le 28 octobre 2008

 

copyright : Ana Rossi



Bahia en brésilien et en français dans le texte

 

Dans la traversée des langues, la traduction s’opère par coups de pinceaux, des « pinceladas », comme on dit en brésilien pour rendre lisible ce qui est forcément très loin et inatteignable. Et c’est bien le cas du livre Les marques du feu et autres nouvelles de Bahia, de l’auteur Aleilton Fonseca, traduites en français par Dominique Stoenesco, dans un partenariat éditorial Lanore Littératures et 7 Letras, dans une édition bilingue très soignée. La facture du livre est belle, et dès la page de garde, on a envie de s’y plonger.  Les très belles illustrations de Fernando Oberlaender rappellent l’art du Nord-est brésilien.

Ainsi, dans une présentation succincte, le traducteur Dominique Stoenesco, présente au lecteur les cinq récits « fortement imprégnés de la culture et de l’imaginaire populaires brésiliens, notamment des habitants de l’Etat de Bahia. » Cinq histoires du quotidien du nord-est immortalisent ces sentiments ressentis au jour le jour où l’intensité ne délaisse rien aux attachements, des histoires d’amour et de fraternité (entre des hommes et des animaux, des hommes avec leurs semblables) qui se lisent d’un trait.

Dans la première nouvelle, « Le chant d’Alvorada », l’éleveur du coq joue sa vie sur le ring au moment où « son » animal prépare son dernier combat. La deuxième « Les marques du feu » est un récit poignant de la légèreté et de l’intensité de la jeunesse, de l’amour toujours en devenir, émouvant dans la subtilité de sentiments qui n’auront pas lieu, puisque la vie en a décidé autrement, puisque la scène des amours, le Mercado Modelo n’y est plus, ravagé le temps d’une nuit par un incendie. Et la chute est telle que nous, lecteurs, restons là les bras branlants avec ce personnage du  jeune homme qui ne reverra jamais celle qu’il a aimé, et qu’il attendait dans l’une des entrées du bâtiment. La troisième nouvelle « Le sourire de l’étoile » est un texte grave qui commence avec la description de la mort d’une jeune handicapée, Estelle, sœur aîné d’un petit frère qui en a honte, et qui la délaisse sous la pression de ses copains habitués à houspiller la jeune handicapée. Et c’est dans le néant laissé par sa disparition précoce que le frère prend conscience (il aura tout le temps de sa vie pour le faire) du trésor qu’il délaissa. La quatrième nouvelle est aussi l’histoire d’une non-rencontre, une arrivée trop tardive, des gens qui se perdent de vue, et puis la vie qui passe, et qui nous prend ceux qu’on aime. « Jaou le Bouvier » est donc une de ces histoires, avec ses deux personnages, membres d’une même famille qui se retrouve (celle restée à la campagne, et celle de la ville, et c’est aussi un peu l’histoire du Brésil), et qui vont aussi se perdre rapidement suite à la mort du cousin le plus âgé. Enfin, dans la cinquième, la narratrice est la vieille dame d’une grande noblesse qui se souvient de l’arrivée dans ses contrées de Nhô Guimarães, l’auteur brésilien Guimarães Rosa qui immortalisa ces provinces brésiliennes si distantes de l’Océan Atlantique.

Le texte en français pulse et le traducteur s’évertue à rendre la légèreté et la force du texte brésilien mettant en scène cette vie de l’intérieur du Brésil, de ces terres immenses d’où l’Océan Atlantique est invisible, avec ses rythmes, ses parlers, ses émotions.

 
Le livre est très beau, et félicitons cette heureuse initiative de réaliser une édition bilingue pour montrer un peu de ce qu’on est au Brésil au monde d’ici.

 

Fonseca Aleilton, Les Marques du Feu et autres nouvelles de Bahia / As marcas do fogo e outras histórias, Paris-Rio de Janeiro, Lanore Editions-7Letras, 2008, 156 p.

Ana Rossi, Avignon, le 15 décembre 2008

© Ana Rossi






[1]Aleilton Fonseca, Nhô Guimarães, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2006, p.127.